Benedito Pereira de Miranda - O Delicado
  Publicado em 17/11/2005 07:43, com 197 acessos.


Benedito Pereira de Miranda é filho de João Batista Pereira e Maria Pereira de Miranda, dona Lica. Nasceu em Piranguçu, em 21 de abril de 1936. Em 1950, começou a trabalhar com o pai no seu bar. Era então o Dito da Lica. Em 1961 casou-se com dona Nina Roque, e tem quatro filhos, Lauro, Mônica, Magno e Miriam, e sete netos. E mantém vários nomes: para a maioria dos habitantes da cidade ele é o Dito da Lica; em família é carinhosamente chamado de Nenen mas para o restante do mundo é conhecido por Delicado.

A partir do casamento, passou a administrar o bar do pai. Naquela época fazia sucesso o célebre baião de Waldir Azevedo, chamado Delicado e a moçada exigia todo dia ouvir na eletrola do Bar aquele disco de 78 rotações. Foi tanta insistência que a moda pegou e Dito da Lica ganhou o nome do referido baião, que eternizou colocando o disco em um quadro que ornamenta a parede do seu restaurante, ao lado de antigos anúncios.

E o bar, ainda conhecido como Bar do João Batista, ganhou o nome oficial de Bar Delicado, que até 1990 foi sediado em vários pontos: por quase quarenta anos funcionou numa casa antiga e que foi demolida, depois transferiu para o salão paroquial e posteriormente para o posto de gasolina. Naquele ano Delicado construiu na cidade um sobrado, com sorveteria e lanchonete em baixo e restaurante e cozinha em cima onde, até hoje, é a sede do famoso Lanchonete e Restaurante Delicado.

Delicado é singular na união que faz de qualidades e características usualmente vistas como antagônicas. É irriquieto mesmo, não pára, está sempre em movimento. Dorme tarde e acorda cedo. Entre a chegada, às 9h30, e a saída, ao fim da conversa, quase às 15h, não sentou, nem mesmo antes da chegada dos clientes habituais. Move-se com agilidade, como uma criança, vitalidade surpreendente para seus 70 anos. Ao mesmo tempo, exala tranqüilidade e calma, inspira sossego e gosta de uma boa prosa.

A seriedade é outra marca do singular caráter de Delicado, por conviver com um espírito que brinca todo o tempo, sempre pronto a um chiste, uma piada, um comentário bem-humorado. Uma de suas brincadeiras prediletas é identificar em mesa de conhecidos alguém que chega pela primeira vez, vestir uma máscara de tristeza após algum elogio à comida e murmurar, de olhos baixos: “É, mas eu vou ter de fechar”. Invariavelmente o novato interpela: “Mas por quê?”. E ele, com um sorriso maroto, emenda: “É, se não fechar todo dia os ladrões levam tudo...”. Desavisados caem no logro de levá-lo a sério quando aconselha: “Nunca se deve cheirar cachaça boa, a boca enche-se de água e isso estraga o sabor da pinga”.

A seriedade, aliada à bondade, que é outra marca pessoal de Delicado, trouxe-lhe ampla consideração da parte da comunidade E isso destinou-o a uma função ‘sui generis’, a de juiz de paz, nomeado pelo governador e empossado pelo juiz de direito, que exerce há vinte e cinco anos sem remuneração. Após a Constituinte de 1988, algumas das tarefas do juiz de paz passaram à alçada dos juizados de pequenas causas. Mas, antes, a função justificava-se plenamente pelo nome: levar a paz à comunidade e dissolver as desavenças.

Delicado explica: “Quantas vezes saí a pé ou a cavalo pelas roças resolvendo encrencas. Fiz centenas de casamentos e reaproximei muitos casais desentendidos. A toda hora surgem problemas, é animal que invade terrenos e mananciais, é briga por cercas e divisas ajudada por documentos antigos e mal explicados, é benfeitoria de um que se torna problema pra outro. E eu tinha de resolver tudo isso na base da conversa”. O juiz de paz não tem poder de polícia, apenas a força da persuasão, e deve encaminhar a solução dos conflitos com diálogos que favoreçam a compreensão. Nem sempre é bem compreendido por todos, ainda mais movendo-se por conflitos que com facilidade se enchem de melindres. E Delicado relata com orgulho: “Em vinte e cinco anos de juiz de paz, nunca tive nenhum desafeto, nenhum inimigo. Só tenho amigos”. E nunca fala de política, futebol e religião, não sem certa dose de sabedoria.

Texto de Francisco Villela






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