Sebastião Felix da Silva
  Publicado em 2/5/2006 11:09, com 429 acessos.


TIÃO FELIX


Homem trabalhador, forte e enérgico, inteligente e empreendedor. Assim era Sebastião Félix da Silva, ou simplesmente Tião Félix, personagem que marcou época nas décadas de 40 a 60, período que viveu em Piranguçu.

Aos 12 anos Tião Felix andava a cavalo normalmente e demonstrava habilidade na confecção de artefatos de madeira. Para os que não o conheceram estes predicados são perfeitamente normais. E realmente o seriam não fosse Tião Felix portador de uma anomalia congênita que impediram o crescimento normal de suas pernas, que embora terminassem à altura dos joelhos deixava a impressão que nunca lhe fizeram falta.

Tião Felix foi um excelente marceneiro. Tinha sua oficina instalada em frente ao solar da família Ricota onde executava com rapidez e perfeição qualquer trabalho em madeira tais como: guarda-roupas, mesas, cadeiras, cômodas, camas, porteiras, os tradicionais baús de noivas encomendados com antecedência para a guarda do enxoval etc. Em sua oficina também eram feitos os mais diversos tipo de serviços como cobrir botões, consertos de chapéus, guarda-chuvas ...

Tião Felix teve uma juventude normal como qualquer pessoa. Trabalhava, ia a jogos de futebol, festas etc. Devido ao esforço feito para se locomover compensando a quase ausência de suas pernas, era muito forte principalmente nos braços. Isso talvez tenha lhe caracterizado um perfil de homem bravo e genioso, tipo que não enjeitava briga e topava qualquer parada. Conta-se que certa vez o time de futebol de Piranguçu foi jogar em São José do Alegre e Tião Felix fazia parte da torcida que, juntamente com o time, aproveitaram a viagem para irem ao baile que fazia parte da programação do final de semana naquela cidade. Como era de se esperar (e normal na época), os rapazes do local com ciúmes de suas garotas, não ficaram satisfeitos com os convidados e resolveram expulsá-los do salão de baile. E até que estavam conseguindo não fosse a interferência de Tião Felix que, de maneira não muito cordial, fez uso de sua rapidez e força nos braços deixando um zumbido no ouvido do primeiro engraçadinho que encontrou, gerando um desconforto aos presentes que só terminou com auxílio da turma do deixa-disso.

Em sua oficina de trabalho, Tião Felix não admitia a presença de pessoas que queriam passar o tempo vendo-o trabalhar. Esta curiosidade por parte de alguns tinha fundamento, pois praticamente sem perna ele era mais ágil que muitas pessoas. Se por exemplo estivesse montando um guarda-roupa, locomovia com incrível facilidade e em segundos apoiava a mão em uma cadeira e se projetava sobre uma mesa e da mesa pulava em cima de outro móvel até atingir o topo do guarda-roupa. Após executar o trabalho descia tão rápido quanto subia. Sua destreza era tamanha que transformava seu trabalho em um verdadeiro espetáculo cuja platéia por vezes o atrapalhava. E por isso os intrusos não eram bem recebidos e para evitá-los existia na parede um cartaz com os dizeres “EM OFICINA DE TRABALHO NÃO É LUGAR DE SAPO, LUGAR DE SAPO É NA LAGOA”. Se o desavisado não desse a devida atenção era energicamente convidado a se retirar.

Mas Tião Felix além de marceneiro foi um empreendedor. Tinha visão das dificuldades da população e procurava soluções para todas elas. Tanto assim que conhecendo a deficiência no transporte da população, implantou uma linha de ônibus de Piranguçu para Itajubá e vice-versa. Como gostava de ser uma pessoa autônoma e independente, mesmo sendo deficiente quis ele mesmo dirigir o ônibus. Como não tinha pernas, cuidava apenas do volante e do câmbio. Ao seu lado, acomodado em um banquinho ia o Benedito, seu ajudante, que ao seu comando, pisava no freio ou na embreagem quando precisava mudar a marcha. Dito também recebia ordem para alterar a velocidade do veículo através do acelerador. Dizem que após passar uma terceira marcha, Tião Felix gritava para seu ajudante: “mete o pé ai Dito que aqui eu garanto”.

Lá pelos idos de 1964, Tião Felix resolveu trabalhar com móveis em fórmica na vizinha cidade de Itajubá. Mas não satisfeito com o resultado de seus negócios, resolveu mudar para São Paulo onde trabalhou por vários anos, tendo mobiliado diversos apartamentos. Morando em um grande centro, próximo a uma medicina evoluída e provida de recursos, chegou a fazer uso de próteses em suas pernas. Como pessoa de visão e usando de seu tino empreendedor, observou a alteração no modo de vestir da população e chegou a montar uma malharia. Poucas vezes visitou nossa terra, certamente em decorrência de alguma dificuldade. Mas quando por aqui aparecia a notícia logo se espalhava e era saudado por todos. Com o passar do tempo, já doente, foi viver com parentes na cidade de Taubaté onde faleceu e está sepultado.

Aos que o conheceram ou não, ficou a lição de vida que nos deixou. Sejamos nós pessoas normais ou deficientes, não importa. Todos temos condições de vivermos com dignidade e de sermos úteis à sociedade.


Texto enviado por Francisco Xavier de Siqueira




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